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terça-feira, 10 de novembro de 2009

A Arquitetura da Fotografia - Relatos de um fã de Cristiano Mascaro

Cristiano Mascaro são os olhos de São Paulo, assim como o Parque do Ibirapuera é o nariz e a Sala São Paulo é a boca. Nenhum trabalho fotográfico sobre a maior metrópole do país é mais importante que a desse artista da luz.

Nascido em Catanduva, interior de São Paulo, aos 22 dias de outubro de 1944. Mascaro se formou em Arquitetura pela FAU/USP em 1968, em 1986 se torna Mestre em estruturas ambientais urbanas pela FAU/USP com a dissertação O Uso da Fotografia na Interpretação do Espaço Urbano e em 1994 consegue o título de Doutor também pela FAU/USP com a tese A Fotografia e a Arquitetura. Mas foi durante a faculdade, em uma escapada de uma de suas aulas, que ele se encantou com o que seria sua profissão. Ao procurar alguns livros na biblioteca, se deparou com um todo especial, nele estava a obra de um dos maiores gênios da fotografia: Henri Cartier-Bresson, o francês que desenvolveu uma maneira própria de fotografar e que depois a apelidou de momento decisivo. Ainda fora inspirado por nomes como Robert Frank, aquele nobre homem que produziu The Americans há 50 anos, além de mencionar sempre outro mestre: Irvin Penn.

Com todo esse referencial, Ricardo Ohtake, no documentário Mascarianas que fala do trabalho de Cristiano, traduz bem e reforça o lado estético e o trabalho de luz e sombra, muito presente na obra do fotógrafo. A arquitetura está, de fato, muito presente em seu olhar, mas ele também revela um lado humano presente em todas as cidades. 

No bate-papo que tivemos com ele no Sesc Pinheiros na sexta-feira passada (06/11), com mais 20 sortudos presentes , ele fala: "não existem cidades, existem pessoas", e é nessa frase que conseguimos ver sua preocupação humanística, que por mais que sejamos cercados de belíssimos arranha-céus nada faria sentido sem alguém para habitá-los.

É pena que tantos paulistas e paulistanos desconheçam seu nome e principalmente seu trabalho. Eu, quando comecei a me interessar pela caixa mágica (não, não é a TV), me deparei e me encantei com um livro deste senhor bem-humorado e simpático. O livro era São Paulo (Editora Senac, 2000, 199p). As composições eram meticulosas e pareciam desenhadas de tão bem dispostas. Na conversa com ele, ficou claro que ele é dotado de uma grande paciência para realizar seus projetos e que é perfeccionista, mas grandes gênios tem que ter essa vontade de sempre fazer o melhor e ele consegue ser simples e totalmente abrangente em uma imagem, algo que admiro.

Neste momento, ele vive uma nova fase de sua vida, descobrindo a fotografia digital. Sim. Faz apenas dois anos que Cristiano deixou de usar suas câmeras de filme, e ele diz com muita graça: "ainda não aprendi a mexer, algumas vezes eu aperto o botão do menu com o nariz". E nesse novo instante suas preocupações mudaram, o que antes era feito numa sala escura, hoje é feito diante de um computador, em relação a segurança ele disse: "Tenho que colocar minhas novas câmeras no seguro, pois essas são visadas.(..) com as antigas nunca tive problema, acho que os ladrões sentiam preguiça de ter que levar tripé, câmera(...)".



Depois dessa noite memorável e de tanto falar sobre minha mais nova paixão profissional, pude chegar para um dos meus grandes ídolos, apertar sua mão e dizer: "Parabéns pelo seu trabalho". Ele bateu no meu ombro, agradeceu e eu fui embora, pelas ruas de São Paulo retratadas por ele e que me inspiram.

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Trecho do documentário de Alexandre Leal que apresenta o fotógrafo, arquiteto e professor Cristiano Mascaro Faz parte da série de DVDs Encontros do Itaú Cultural sobre artistas e outras personalidades da história do Brasil.

Disponível para empréstimo gratuito na midiateca da sede do Itaú Cultural em São Paulo ou em bibliotecas e instituições parceiras do Instituto. Mais informações: (11)2168-1777

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Superficialidade Técnica

O que é beleza para você? A subjetividade desta resposta está embrenhada na formação de cada um e faz com que a diversidade seja o fator mais importante dentro da sociedade atual. Mas como fuciona isso? Por que somos tão diferentes? No desenvolvimento de uma personalidade a sua cabeça funciona como um baú, onde coloca-se apenas o que VOCÊ acha interessante e valioso, e faz com que não existam dois baús iguais, pois não existem duas pessoas que tenham vivido as mesmas coisas com a mesma intensidade e raciocínio, em nenhuma parte do universo, por isso falar sobre o conceito de beleza torna-se algo impraticável.  E discutir a ferro e fogo o que me satisfaz estéticamente leva diretamente a essa frase: "o segredo do sucesso eu não sei, mas o do fracasso é tentar agradar a todos".

Usando a fotografia como parâmetro, li o ótimo texto do Ivan de Almeida, em seu blog Fotografia em Palavras, ele fala sobre o conceito da fotografia bela ou tecnicamente correta, e concordo inteiramente com a concepção da qual ele faz referência: onde simplesmente responder a questão de que a imagem é bonita não quer dizer efetivamente que ela seja ou não bela, ou mais além, não quer dizer que ela tenha algo em sua essência que seja importante.

O que deve fica claro, pelo menos para mim, no texto do nobre Ivan e nessa discussão, é que falta identidade para cada imagem produzida. Como quando me trouxeram uma revista Clix e no mesmo momento em que bati o olho, identifiquei e disse: foi o Clício Barroso que fez a capa. É esse tipo de assinatura que vejo em alguns profissionais e que falta na maioria, ou é muito complicado de reconhecer quando o retrato era de Arnold Newman? Ou quando a fotografia é de Cartier Bresson?

A discussão de beleza deve ser absolutamente colocada de lado, isso na verdade pouco importa, afinal nem sempre concordaremos sobre algo tão singular e nem vai adiantar tentar provar para mim que o seu bonito deve ser o meu bonito.

Usando ainda a fotografia como referência, entre milhares de imagens que somos submetidos todos os dias, poucas têm o formato despadronizado (exemplos de padrão na fotografia: regra do terço, padrões de iluminação, padrões de configuração de câmera e até mesmo padrões de utilização de softwares para edição de imagem, que tornam todas as fotos com o mesmo formato básico). Dentre as despadronizadas temos as que foram feitas sem o mínimo de conhecimento técnico e temos aquela que tiveram um porquê na sua elaboração e consequentemente em sua feitura.

Lendo Luz, Câmera e Ação de Edgar Moura, fica claro o motivo do problema "padrão". Lá ele menciona: "Você quer saber onde, como e quando (iluminar), e eu acho que, para se chegar lá, é preciso passar por Deus, pela lua e pelos homens. O único jeito de saber como é saber porquê...", trocando em miúdos: os novos alunos e estudiosos visam a técnica e pouco intelecto. O Twitter é um grande reflexo disso, bastam 140 caracteres para chegarmos a uma conclusão, ou passar uma idéia. Isso não quer dizer que o microblog seja uma péssima idéia, mas pode te limitar e principalmente te condicionar a uma vida de coisas breves e superficiais.

Estes dias li que não estamos mais na era da criatividade, estamos na era da relevância. Isso coloca TUDO no balde do politicamente correto e do tecnicamente perfeito. Aí você se pergunta, e daí? E eu te respondo: formando milhares ou milhões de técnicos temos apenas alguém para realizar uma determinada função, o que tem muita relevância, afinal de contas as funções têm que ser executadas. Agora vamos expandir. Seja você um fotógrafo, pintor, artista plástico, médico, engenheiro, culinarista ou qualquer que seja a profissão, se você quer realizar algo com suas características, com sua identidade, se você quer que algo feito por você seja realmente importante é necessário que se tenha, no mínimo, referências. Veja, não se trata de copiar, mas de absorver e entender como chegar até a um determinado resultado. Sabendo isso, conciliado a uma boa preparação técnica, teremos algo diferenciado.

O problema dessa história toda, e que gerou este post, é exatamente o quão superficial tem se tornado a educação e como estamos ficando condicionados a entender superficialmente de tudo. Outro dia, vi o Ed Motta falando sobre como ele é apaixonado por vinhos, por discos, por queijos... e como ele entende profundamente sobre cada assunto e ele disse: "hoje em dia parece que as pessoas vieram ao mundo a passeio".

Ele tem razão. Hoje, formam-se pessoas que durante toda uma vida serão meros apertadores de botão, e que passarão pela vida sem saber o motivo do botão estar ali.