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quinta-feira, 29 de julho de 2010

É o Praça do Correio?

Dia desses, um amigo estava tentando me convencer a ir pro bar (como se uma coisa dessas precisasse de convencimento...) e me falou de um ônibus que passa ao lado de onde ele estava e que pára na frente de casa. No meio dos argumentos eu falei que tinha mil coisas pra fazer, além do basicão tomar banho, jantar, dormir. No meio da conversa, constatamos que fazia tempos que não nos falávamos. Porque, ultimamente, a gente só se via em turmas e nessas reuniões ninguém conversa direito com ninguém.

Comentamos sobre o que gostaríamos de falar no bar. Falei da minha TPM e das minhas aulas. Ele falou dos projetos de foto e da faculdade. Comparamos as agendas para ver se vai demorar muito para conversamos. Falamos de expectativas. De planos, objetivos, ânsias. Precisávamos da opinião do outro porque, às vezes, você tem dúvidas quanto às suas certezas. E é para isso que servem os amigos, né?! Para apontar o invisível que a gente ignora. Aí que eu vi que, tanto eu quanto ele, queríamos falar sobre a mesma coisa: as incertezas.

Tenho certeza que todo mundo tem uma incerteza que apetece o sorriso. Um aperto no peito antes de dormir. Ao menos uma vez por mês. Porque ninguém sabe se está mesmo no rumo certo. Às vezes você sabe. Às vezes, é uma crença e você quer mesmo que esteja certo. Às vezes é um sentimento, quase uma superstição do tipo “só pode ser”. Mas saber mesmo, sempre, ninguém sabe. E não sabe porque a vida é tentativa e erro. É aposta, é jogo. Tem hora que é forca. Tem hora que é xadrez. E nas horas em que a vida é batalha naval eu queria que ela fosse amarelinha.

Ninguém sabe o caminho para suas certezas. Ele pode passar pela Praça do Correio e te deixar num bar. Ou ela pode pegar aquele caminho pela Rio Branco e seguir reto toda a vida. Não tem motorista que dirige devagar, para que você possa reparar se está perto do ponto. Porque a vida não tem itinerário e ninguém sabe se esse ônibus é mesmo o “Praça do Correio”.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Falha de comunicação

Não pude resistir a seu choro. Ofereci-lhe um lenço. Era uma moça magra, de cabelos curtos e olhar grave. Bonita, mas com ar sombrio, trajava regata branca, uma calça jeans e – não vi, mas minha imaginação me permite supor – all star. Uma corrente pratreada no pescoço, formada por elos entrelaçados. Muito séria, parecia distante enquanto eu, mesclando momentos de contemplação e desinteresse, buscava despertar-lhe a atenção.

Enfim o carro do metrô chega à nossa plataforma. Abrem-se as portas e penetramos como bois que atendem mecanicamente ao sinal de um berrante. Ela vai na frente, não a ponto de me permitir uma exame mais clínico de suas formas. Sento-me ao seu lado e começo minha viagem interior. Cabeça vazia é oficina do diabo, mas como o diabo é o pai do rock, minha mente viaja entre sistemas solares e discos de vinil. De repente, lembro-me do pôr do sol no Rio de Janeiro e de minha família. Duas coisas que adoro, mesmo tendo-as tão longe. Universos paralelos, futuros imprevisíveis, paixões solitárias, ouço o som do vento que grita de tarde as notas da monotonia interiorana. Um desafio pela frente: a conquista da pessoa amada.

Saio desses devaneios por causa de um choro mal contido que ouço ao meu lado. “Não, ela deve estar resfriada”. Quem carrega consigo o fardo das lágrimas sabe distinguir um choro de uma gripe. Chorava a pobre moça ao meu lado. De início, tomado por meu recato, pelo medo de oferecer ajuda e parecer indiscreto, silencio. Ao mesmo tempo, sinto-me obrigado a ajudá-la de alguma forma. Pensava que o mundo seria melhor se o fato de duas pessoas não se conhecerem não fosse impedimento para que uma ajudasse a outra. Queria acalentá-la, contar uma piada. Queria ver seus dentes se abrirem num sorriso. Sentia que ela queria ajuda. Mesmo que não admitisse, mesmo que a falta de confiança do ser humano no próprio ser humano não permitisse que ela se abrisse para um desconhecido como eu, ela queria um ombro para chorar. Ou melhor, queria não chorar.

Procuro em meu bolso roto da viagem um lenço que pensei ter esquecido dias atrás. Encontro-o amarrotado. Limpo, mas amarrotado. Delicado e indeciso, ofereço o lenço para a moça. Óbvio que ela não aceita. Sabe-se lá aonde eu teria colocado o lenço ou a mão. Recusa minha ajuda como quem recusa carona no meio da noite. Por medo, por nojo, ou simplesmente por educação. Pensei comigo: o que mais falta à chorona do meu lado é a única coisa que queria dar-lhe, bem como a proposta de nosso blogue. Comtato.