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quinta-feira, 8 de maio de 2008

Não é melhor ser alegre?

O Brasil vive sob um estigma de que seu povo é um dos mais dóceis e amáveis por natureza. Não tenho certeza sobre quem foi o primeiro a nos rotular com esses epítetos, se Gilberto Freyre ou outro intelectual de renome. Parece-me também que a carta de Caminha informa ao rei sobre a tranquilidade aparente de nossos índios. No entanto, as manifestações pessoais, coletivas e midiáticas sobre o caso da menina Isabela – curiosa a vinculação do adjetivo “menina” antes do nome. Seria essa prática tão comum uma forma de causar maior furor e comoção geral? – denotam uma faceta oculta de nossa sociedade, de nosso país: a tristeza, a depressão, a melancolia.

Se, de um lado, o luto pela morte de uma criança tão jovem é uma forma de a sociedade se recompor do choque, há, por outro, um espetáculo medonho de notícias incessantes com minúcias torpes sobre a morte da menina (veiculadas até durante intervalo do jogo Ponte Preta e Palmeiras), e de pessoas exaltadas, com os olhos colados em frente ao televisor, ávidas para saber de mais detalhes que – pensam – têm alguma importância para suas vidas. Trocando em miúdos, abundam moscas ao redor da merda.

Será que o brasileiro é tão amável e feliz como se pinta por aí? Um dos sintomas da depressão é justamente remoer as angústias, os motivos que fazem o deprimido sofrer. No caso, a sociedade está em luto. E agindo como uma pessoa doente, esmiuçando detalhes da morte (ou do assassinato), discutindo sobre a inocência, a pureza da menina, trazendo dor a si mesma. Conforme essa tristeza se faz viva, torna-se pertinente a questão proposta desse post: o brasileiro é realmente feliz? Chorar a perda de uma pessoa querida é algo necessário para espantar a dor, mas cutucar a ferida a todo momento e ser feliz com isso é, talvez, doentio. Mas como a sociedade está chafurdada de seus valores tortos, tudo continua como sempre foi. Como diria Lennon, Happiness is a warm gun.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Brave new world

Ah, as invenções humanas. Intervenções do homo sapiens na natureza ou no seu entorno que resultam em novos objetos, novas idéias, novos conceitos. Capacidade de criar algo a partir do nada, ou de valer-se de uma invenção para criar outra. Certamente é um daqueles marcos imaginários que dividem o mundo animal em seres pensantes e não pensantes.

Roda, dinamite, livro, lápis, máquina de escrever, faca, saca-rolhas (aliás, quem inventou a rolha?), copo de plástico, papel higiênico, absorvente, aparelho de barbear, sabão, cocaína, maconha, ópio. De uma maneira ou de outra, todas se valem de um mesmo propósito: auxiliar o homem em algum aspecto de sua vida. A dinamite, por exemplo, é ótima para demolir montanhas que serão substituídas por rodovias. Já a cocaína, a maconha e o ópio podem ser de muita valia para os que tentam fugir da realidade. Apesar dos pesares, isso tem lá sua utilidade. O problema, a meu ver, são os pesares.

O telefone foi uma invenção que realmente trouxe modificações na vida das pessoas. Falar com um parente, um amigo ou uma namorada do outro lado da cidade ou do mundo, é uma facilidade que altera profundamente o cotidiano das pessoas. É uma transposição fenomenal das barreiras espaço-temporais. Ao invés de ir à casa de um amigo discutir o destino do livro desaparecido da Poética de Aristóteles, telefono para saber sua opinião. Para marcar um encontro com uma moça, pronuncio palavras a um aparelho que se encarrega de transmití-las. Fácil assim.

O que falar do celular então? Além de conectar todos os lares, o telefone celular possibilita que se ache uma pessoa até se a mesma estiver no banheiro. Apesar disso, um retrocesso nas questões de individualidade e intimidade humana. Aqui, o problema não são os pesares. O ser humano precisa de um tempo só para ele, sem ser incomodado. Sua individualidade precisa ser estimulada, e não somente sua vida em sociedade. Precisa pensar sua existência, seus atos, suas crenças. Exercitar seu cérebro, para que possa continuar inventando novas coisas, e não só se apoiando nas já inventadas para sobreviver. E a possibilidade de ser encontrado a qualquer hora por um chefe ou por uma namorada controladora é altamente castrador, intelectualmente e individualmente. Quem guarda um telefone na cabeça, depois que embutiram agenda no celular? E as novas doenças da modernidade, a síndrome do celular vibrando, ou a nomofobia? A primeira é uma estranha mania de colocar a mão na perna ou na bolsa a cada vibração mais forte, achando que o celular está tocando. A segunda é chamada por muitos de abstinência eletrônica, termo que auto-explicativo. Esses males já tomam conta de muitas pessoas, mas poucos tomam consciência desses novos hábitos tão cotidianos quanto imperceptíveis.

As invenções devem facilitar a vida, mas a que preço? Estamos tão dispostos a essa mecanização da vida humana, que não nos importamos com o que estamos perdendo? É preciso cuidado ao abrir a caixa de Pandora, pois o fogo que ilumina o caminho é o mesmo que frita a pururuca.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Falha de comunicação

Não pude resistir a seu choro. Ofereci-lhe um lenço. Era uma moça magra, de cabelos curtos e olhar grave. Bonita, mas com ar sombrio, trajava regata branca, uma calça jeans e – não vi, mas minha imaginação me permite supor – all star. Uma corrente pratreada no pescoço, formada por elos entrelaçados. Muito séria, parecia distante enquanto eu, mesclando momentos de contemplação e desinteresse, buscava despertar-lhe a atenção.

Enfim o carro do metrô chega à nossa plataforma. Abrem-se as portas e penetramos como bois que atendem mecanicamente ao sinal de um berrante. Ela vai na frente, não a ponto de me permitir uma exame mais clínico de suas formas. Sento-me ao seu lado e começo minha viagem interior. Cabeça vazia é oficina do diabo, mas como o diabo é o pai do rock, minha mente viaja entre sistemas solares e discos de vinil. De repente, lembro-me do pôr do sol no Rio de Janeiro e de minha família. Duas coisas que adoro, mesmo tendo-as tão longe. Universos paralelos, futuros imprevisíveis, paixões solitárias, ouço o som do vento que grita de tarde as notas da monotonia interiorana. Um desafio pela frente: a conquista da pessoa amada.

Saio desses devaneios por causa de um choro mal contido que ouço ao meu lado. “Não, ela deve estar resfriada”. Quem carrega consigo o fardo das lágrimas sabe distinguir um choro de uma gripe. Chorava a pobre moça ao meu lado. De início, tomado por meu recato, pelo medo de oferecer ajuda e parecer indiscreto, silencio. Ao mesmo tempo, sinto-me obrigado a ajudá-la de alguma forma. Pensava que o mundo seria melhor se o fato de duas pessoas não se conhecerem não fosse impedimento para que uma ajudasse a outra. Queria acalentá-la, contar uma piada. Queria ver seus dentes se abrirem num sorriso. Sentia que ela queria ajuda. Mesmo que não admitisse, mesmo que a falta de confiança do ser humano no próprio ser humano não permitisse que ela se abrisse para um desconhecido como eu, ela queria um ombro para chorar. Ou melhor, queria não chorar.

Procuro em meu bolso roto da viagem um lenço que pensei ter esquecido dias atrás. Encontro-o amarrotado. Limpo, mas amarrotado. Delicado e indeciso, ofereço o lenço para a moça. Óbvio que ela não aceita. Sabe-se lá aonde eu teria colocado o lenço ou a mão. Recusa minha ajuda como quem recusa carona no meio da noite. Por medo, por nojo, ou simplesmente por educação. Pensei comigo: o que mais falta à chorona do meu lado é a única coisa que queria dar-lhe, bem como a proposta de nosso blogue. Comtato.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Hasta la vista, Baby (Swarzenegger na veia)

Mudanças. Chegou a hora de mudanças. Mas leva tempo para se ter certeza disso. Até lá, sentimentos contraditórios tomam conta de seu corpo. Nervosismo, insegurança, medo, tesão, euforia, felicidade. Diante da dúvida, o que fazer? Ficar ou continuar? Chorar ou sorrir? Dizem os experts em qualidade de vida que a última coisa que se pode fazer em benefício próprio é acomodar com uma situação confortável. Com termos como “mundo competitivo” e “zona de conforto”, fazem a cabeça de milhares. Cá para nós, zona de conforto é puteiro com sofá. Como vovó já dizia, jacaré que pára de nadar morre afogado. E, quando se percebe que é chegada a hora da transformação, algumas coisas ficam para trás. E essa é a parte ruim das mudanças.

De todas as coisas que se aprende vivendo em uma selva, talvez a mais valiosa delas seja a segurança que os animais sentem quando estão em bando. Um rebanho de bois é capaz de afastar a mais destemida das onças. Os companheiros de blog e outros companheiros me farão uma falta danada. Mas sei que entendem quando algo precisa mudar. Terei que caçar sozinho, ou em outros rebanhos. O que acontece é que o muito que tenho em minha vida é pouco para minha fome. O ouro que fazia minha cabeça outrora não mais me sustenta. Eu não quero só comida, eu quero bebida, diversão e balé (Calma, Telma, eu não sou gay). Eu não quero só comida, eu quero a vida como a vida quer. Bem, Raul (mais uma vez, Tocaraul!!!!) explica melhor.



Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês...

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...

Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa...

Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado...

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Prá ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos...

Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...

É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...

E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social...

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...

Ah!
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...




sexta-feira, 28 de março de 2008

O que é real?

Sabe aqueles dias em que nada dá certo, e sua vida se transforma em uma sucessão de crises pessoais, com dúvidas inexplicáveis? Enquanto esse fenômeno é pontual, tudo bem. Você leva numa boa e encara como se fosse apenas uma crise passageira, ou uma confluência desarmônica do seu mapa astral. Mas, em algum momento, percebe que esse fenômeno começa a se repetir indefinidamente, de tal maneira que as recaídas começam a parecer simplesmente uma armação do destino, uma travessura do Todo-Poderoso, que aproveitou uma folguinha no firmamento para espezinhar aquele verme insignificante que está simplesmente tocando sua vida.
O resultado pode ser tal qual uma falha na Matrix, a vida perde sua razão. O chão das dúvidas se abre a seus pés e seus preciosos axiomas e preconceitos voam como farinha no Ceará. E que fazer? Sem respostas para suprir sua ignorância da causa dos tormentos, tenta-se de tudo: de ópio a Jesus, Tantra, Paulo Coelho e Domec.
Balela. A resposta pode estar em uma singela canção.

Conto do Sábio Chinês
By Raulzito

Era uma vez um sábio chinês
Que um dia sonhou que era uma borboleta,
Voando nos campos,
Pousando nas flores,
Vivendo assim um lindo sonho.

Até que um dia acordou,
E pro resto da vida uma dúvida lhe acompanhou.

Se ele era um sábio chinês
Que sonhou que era uma borboleta,
Ou se era uma borboleta sonhando que era um sábio chinês.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Pianinhos, pianinhos...

Os práticos que me perdoem, mas o dia está perfeito para divagações. Essa chuva interminável – e que a essa altura deve ter cooperado para São Paulo bater outro recorde de congestionamento – cria naturalmente uma atmosfera cinzenta e melancólica, barra a luz do sol e produz um barulho de pista molhada em corrida de Fórmula 1 que torna inevitável falar sobre a existência humana e a busca por uma vida mais tranquila.

Uma das formas de alcançar essa tranquilidade é através dos rituais de purificação. Desde tempos imemoriáveis os homens comungam regularmente tais práticas, que têm como finalidade o engrandecimento espiritual. Entre os índios da América do Norte, e mesmo da América do Sul, havia ritos que celebravam deuses, e amiúde terminavam em curiosos banquetes, nos quais eram servidos – todos o sabem – carne humana. Na antiguidade, romanos e gregos davam vazão a seus recônditos instintos em celebrações regulares de orgias e bacanais. Com o advento do cristianismo como religião oficial da Idade Média, foram se formando novas práticas purificadoras, que marcam o encerramento de um ciclo e início d'outro. Entre os exemplos que sobreviveram estão o Natal e o Reveillón. Em diferentes regiões e épocas, há festas particulares, que não vêm ao caso enumerar. Porém, em todos esses ritos, o resultado buscado é alguma espécie de engrandecimento. Pessoal, comunal ou social.

Proveniente do latim carnevare, o carnaval é, por definição arbitrária de sei-lá-quem, a autêntica festa brasileira – algum dia discutiremos o que significa ser brasileiro – e um perfeito exemplo de ritual de passagem. Orgiástico por excelência, é o momento em que várias convenções sociais são pervertidas. Durante quatro dias e quatro noites, pouco importam os conceitos de certo e errado, se deus está debaixo da mesa e o diabo, atrás do armário. A ordem é libertar-se de pudores, medos e sentir-se invadido e dominado por desejos e impulsos reprimidos durante dias, semanas e meses a fio. Tudo é burlado e misturado num êxtase de cores, cheiros, gostos e sensações. Maravilhosos desfiles cheios de pompa têm lugar em um país (com letra minúscula mesmo) marcado de maneira indelével pela pobreza da maioria da população. Sexo, drogas e suor tomam o lugar de puritanismos, monogamia e sanitarismo. Finda a festa, costuma-se ouvir pelas ruas na quarta-feira subsequente: “agora começa o ano”. Todos purificados. E pianinhos.

Graças a Alá, os roqueiros que detestam carnaval também têm sua chance orgiástica: os shows que vez ou outra acometem as grandes capitais brasileiras. Pois nesses momentos, os maltrapilhos cabeludos (e os calvos engravatados também) têm a chance de exorcizar seus demônios. Holofotes e luzes coloridas, sons distorcidos, palavras cortantes, discursos contundentes, decibéis de envergadura cavalar são arremessados contra a platéia que se goza, se deleita, respondendo com toda a força de seus pulmões e prejuízo de cordas vocais. Grita, pula e xinga. Com vontade. Um verdadeiro clube da luta orgasmático. Cotoveladas, socos e pontapés são manifestações genuínas de cada ser humano. Não existe ser imune à vontade de esmurrar alguém na vida (Para a felicidade de todos e o bem geral da nação, esperamos que tais desejos tenham sido devidadmente reprimidos). No momento do show, entretanto, a atmosfera de raiva, o sentido de inconformidade com as regras vigentes interrompem seu ciclo repressor levado a cabo durante determinado tempo, para terem vez e voz em lugar lugar sacramentado pela ocasião. Ali é o palco para que essas pessoas (subproduto das contradições sociais, em minha opinião) tenham sua oportunidade de expelir as sensações negativas acumuladas dentro de cada um. Naquele momento, as regras sociais, de comportamento e postura, são abolidas em prol do orgasmo instintivo. Não é diferente dos rituais orgiásticos em sua essência, apesar de o ser na forma. Todos saem dali com o espírito engrandecido, com o espírito purificado. Terminada a celebração, todos – ou a maioria – se põem a caminhar para casa, continuar suas vidas. Voltar ao sistema que os condiciona diariamente. Violência não é necessária, nem desejada, por isso novamente reprimida. A dose que cabe a cada um já foi liberada durante o show, acompanhando a música.

Nas semanas que se seguem, eis que os outrora enfurecidos roqueiros demonstram uma incompreensível capacidade de amar tudo e todos, eleger suas musas e cores inspiradoras. Respiram aliviados o odor úmido e suave de um jardim de damas da noite. Pianinhos, pianinhos.