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quinta-feira, 24 de abril de 2008

Filho de Maia, Maiazinho é!

Eu sei que tem muita gente que rejeita os artistas que tem afiliação que os favorece, mas é fato que tem muita gente que o dom é basicamente a genética. Tenho entre meus preferidos nesse quesito Ed Motta, Jair Oliveira, Pedro Mariano, entre outros.

Quando eu fui a uma casa noturna, Grazzie a Dio, na Vila Madalena - bairro paulistano, famoso pelos bares e casas - conheci mais um dos x-men da música: Leo Maia, além do carisma com seu público, como tinha seu pai Tim Maia, possui uma voz potente que faz a diferença por toda a sua performance.

No dia 19, sábado passado, o cantor fez o show de lançamento de seu novo álbum: Cidadão do Bem. Eu compareci e notei o quanto é nítida a influência do soul, com melodias de marcação forte de baixo. O arranjo é cheio de elementos, com muito swing. Me lembra, as vezes, Maxwell em suas músicas mais agitadas.

No novo trabalho existem três regravações: “Baby” de Caetano Veloso, “Como Vovó já dizia” de Raul Seixas e “Eu amo você” clássico da soul music de Cassiano, todas em uma total releitura, dando um ar todo pessoal.

A banda que o acompanha é excelente e podemos destacar o percussionista Marcelo Costa e o guitarrista, violonista e produtor Cássio Calazans, eles realmente fazem a diferença durante todo o espetáculo.

Mas o que me fez realmente passar de ouvinte a fã é a leveza do seu show, regado a momentos mediúnicos, em que o artista tem um insight e faz as donzelas da platéia subirem ao palco para dançarem com ele. E como ele mesmo diz: "Quer dançar? o Leo Maia vai te convidar... Vem minha preta".

Ao final, a impressão que se tem é que o síndico fez um bom trabalho, pois no espetáculo quem não dança segura a criança.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Golpe de mestre

A vida é um tabuleiro de xadrez. Entre as peças que nos pregam e as peças que perdemos, em busca de uma jogada melhor, somos movidos, aparentemente de modo aleatório, sem entender que somos um mero peão, posto gratuitamente na diagonal do bispo, que nunca esteve ali por acaso.

Assim são os fatos em Xeque-mate ou Lucky Number Slevin, título em inglês. Sempre me pergunto por que as traduções nunca têm a ver com o titulo original, mas desta vez o nome em portugues é bem melhor do que o título do filme.

No elenco estão grandes nomes, como Morgan Freeman, Sir (isso mesmo, gente) Ben Kingsley, Lucy Liu, Josh Hartnett e o meu preferido de filmes de bad guy, Bruce Willis. Mas o grande trunfo aqui é, além da direção de Paul McGuigan, o roteiro brilhante do estreante Jason Smilovic.

A trama se desenrola a partir de Slevin Kelevra (Josh Hartnett), um jovem que sofre de ataraxia (filosoficamente falando, ausência de perturbações ou inquietações da mente) e após diversas decepções chega a Nova York para visitar seu amigo Nick Fisher e encontra o apartamento deste vazio. Ao chegar conhece Lindsey (Lucy Liu), uma vizinha simpática, romântica e engraçada. Sem tempo de se ambientar, ou mesmo vestir-se, Slevin é abordado por dois capangas de um poderoso mafioso e, confundindo-o com o verdadeiro Fisher, levam-no para encontrar o “Chefe” (Morgan Freeman), que o encarrega de vingar a morte do filho ao matar o filho do “Rabino” (Kingsley), o mafioso rival. Sem tempo de armar nenhuma estratégia, e sempre observado pela polícia, Slevin é levado ao Rabino, que cobra a dívida de Fisher para Goodkat (Bruce Willis), o bandidão-assassino de primeira. Assim, Slevin está, aparentemente por engano, nas mãos dos dois grandes mafiosos rivais de Nova York.

Eu, como cinéfila amante de citações, ganhei um prato cheio com o filme. É daqueles que você tem que assistir, pela segunda vez, com um bloco de anotações do lado, pausando e colhendo frases para enriqucer o vocabulário de expressões cinematográficas, como estas: “Charles Chaplin participou de um concurso de sósias de Charles Chapline ficou em terceiro. Isso sim é uma história!”; “Eu sou baixa para a minha altura”; ou quando a polícia questiona Slevin sobre quem ele é realmente e obtem como resposta um irônico: “Filosoficamente falando?”

Assim como em um tabuleiro de xadrez, tudo se baseia na Manobra Kansas City, algo como as pegadinhas que fazemos com amigos. Eu explico: se você parar no meio da Avenida Paulista e apontar para o céu, mirando-o fixamente em um ponto qualquer, todos que passarem ao redor vão procurar o “nada” que você está atentamente observando. Bruce Willis define isto como uma estratégia de ação, no caso de um dos grandes assassinos por encomenda.

O filme traz diálogos rápidos, irônicos e divertidíssimos; uma fotografia impecável, com rimas visuais; cenas sem diálogos; cuidados com o enquadramento relatando verdadeiros poemas visuais, dignos de histórias em quadrinhos.

Misture aquela atmosfera surpreendente de filmes de máfia como “Os Intocáveis” com algumas pitadas de sarcasmo das comédias holltwoodianas. Junte falas sagazes a atuações de grandes nomes (Freeman, Willis, Kingsley, atuam com naturalidade e talento impecáveis) e carreiras em ascenção (Liu é deliciosamente hilariante e Hartnett hipotiza com uma ironia despretensiosa). Tudo isso em um ritmo acelerado, prendendo o espectador em cada detalhes revelado cuidadosamente ao decorrer da trama.


Esta é a receita da maior jogada que um bom filme pode armar para o público do cinema. A trama dá um xeque-mate em seus espectadores, aquele ataque decisivo, em que não há qualquer possibilidade de fuga ou defesa, o que implica ao término da partida, ou melhor da sessão de cinema, aquela sensação de “como eu não percebi isso antes?”. Tomara que hollywood produza mais destes roteiros, tão escassos e tão cativantes que fazem duas horas discorrerem como se estivéssemos nos deliciando com um romance policial de Agatha Christie.

Brave new world

Ah, as invenções humanas. Intervenções do homo sapiens na natureza ou no seu entorno que resultam em novos objetos, novas idéias, novos conceitos. Capacidade de criar algo a partir do nada, ou de valer-se de uma invenção para criar outra. Certamente é um daqueles marcos imaginários que dividem o mundo animal em seres pensantes e não pensantes.

Roda, dinamite, livro, lápis, máquina de escrever, faca, saca-rolhas (aliás, quem inventou a rolha?), copo de plástico, papel higiênico, absorvente, aparelho de barbear, sabão, cocaína, maconha, ópio. De uma maneira ou de outra, todas se valem de um mesmo propósito: auxiliar o homem em algum aspecto de sua vida. A dinamite, por exemplo, é ótima para demolir montanhas que serão substituídas por rodovias. Já a cocaína, a maconha e o ópio podem ser de muita valia para os que tentam fugir da realidade. Apesar dos pesares, isso tem lá sua utilidade. O problema, a meu ver, são os pesares.

O telefone foi uma invenção que realmente trouxe modificações na vida das pessoas. Falar com um parente, um amigo ou uma namorada do outro lado da cidade ou do mundo, é uma facilidade que altera profundamente o cotidiano das pessoas. É uma transposição fenomenal das barreiras espaço-temporais. Ao invés de ir à casa de um amigo discutir o destino do livro desaparecido da Poética de Aristóteles, telefono para saber sua opinião. Para marcar um encontro com uma moça, pronuncio palavras a um aparelho que se encarrega de transmití-las. Fácil assim.

O que falar do celular então? Além de conectar todos os lares, o telefone celular possibilita que se ache uma pessoa até se a mesma estiver no banheiro. Apesar disso, um retrocesso nas questões de individualidade e intimidade humana. Aqui, o problema não são os pesares. O ser humano precisa de um tempo só para ele, sem ser incomodado. Sua individualidade precisa ser estimulada, e não somente sua vida em sociedade. Precisa pensar sua existência, seus atos, suas crenças. Exercitar seu cérebro, para que possa continuar inventando novas coisas, e não só se apoiando nas já inventadas para sobreviver. E a possibilidade de ser encontrado a qualquer hora por um chefe ou por uma namorada controladora é altamente castrador, intelectualmente e individualmente. Quem guarda um telefone na cabeça, depois que embutiram agenda no celular? E as novas doenças da modernidade, a síndrome do celular vibrando, ou a nomofobia? A primeira é uma estranha mania de colocar a mão na perna ou na bolsa a cada vibração mais forte, achando que o celular está tocando. A segunda é chamada por muitos de abstinência eletrônica, termo que auto-explicativo. Esses males já tomam conta de muitas pessoas, mas poucos tomam consciência desses novos hábitos tão cotidianos quanto imperceptíveis.

As invenções devem facilitar a vida, mas a que preço? Estamos tão dispostos a essa mecanização da vida humana, que não nos importamos com o que estamos perdendo? É preciso cuidado ao abrir a caixa de Pandora, pois o fogo que ilumina o caminho é o mesmo que frita a pururuca.

domingo, 20 de abril de 2008

O samba do amor do sorriso e da flor

Hoje dia 20 de abril se comemora o dia do disco. Alguns dias atrás neste mesmo blog, publiquei um post falando sobre a trilha de nossas vidas. Não é novidade pra ninguém que sou amante incondicional da música popular brasileira.

Não por acaso, trabalho com pessoas que me possibilitam conhecer um pouco mais esse universo tão encantador. Neste mês de abril fiz uma matéria sobre o show “A noite do amor, do sorriso e da flor”. Para quem não conhece, ou nunca ouviu falar, na anunciação de Ronaldo Bôscoli, foi considerado o primeiro show de Bossa Nova.

Aconteceu no dia 20 de maio de 1960 no anfiteatro da Faculdade de Arquitetura, na Praia Vermelha, Rio de Janeiro. Com participações de grandes nomes da nossa música, o destaque e as atenções estavam voltada para João Gilberto, que lançava nas rádios clássicos instantâneos como: Samba de uma nota só, Corcovado, O pato entre outras. Além dele apresentou-se também Nara Leão, Nana e Dory Caymmi, Luiz Carlos Vinhas, Roberto Menescal e Chico Feitosa, e os paulistas na época desconhecidos, Sérgio Ricardo, Johnny Alf, Pedrinho Mattar e Caetano Zama.

Muitos sabiam que o anuncio de Bôscoli era uma resposta a outro show que acontecia no mesmo dia, só que na PUC. Bôscoli e Carlos Lyra vinham se desentendendo desde que Lyra gravou um disco solo com a Philips abandonando os companheiros da bossa. Ate então ante de Lyra pular fora, todos estavam em um projeto de gravar um disco com a gravadora Odeon.

Os dois shows lotaram. Mas foi o pessoal da faculdade de arquitetura que se deu bem. Assistiram um dos maiores espetáculos já feito em nome da bossa nova.

Pegando carona nas festividades dos 50 anos de bossa nova, quero lembrar não só o disco de João Gilberto: O amor o sorriso e a flor, com direção musical de Antonio Carlos Jobim, mas a música que foi considerada divisão de águas na história da musica brasileira: Chega de saudade.

A matéria contando detalhes deste dia será publicada na Revista Almanaque Brasil de Cultura Popular do mês de maio, mas brevemente publicarei no meu outro blog www.ensaiospossiveis.blogspot.com.


sexta-feira, 18 de abril de 2008

Saindo do forno!!!

Meus amigos!

Mais uma dica da boa!

O Festival Sesc Melhores Filmes. (oba!)

O festival terá as melhores produções nacionais e estrangeiras de 2007. É a sua chance de rever o seu filme predileto.

Se eu fosse você, eu iria!

Serviço:

O que: Festival Sesc Melhores Filmes
Onde: Cinecesc - Rua Augusta, 2075
Quando: até 24 de Abril
Quanto: R$ 6,00 [inteira]

www.sescsp.org.br

Aproveitem!!!

Notícia é 1 real!

Se eu repetir o mesmo parágrafo umas vinte vezes muito provavelmente você vai parar de ler esse texto, seria no mínimo irritante e em alguns casos teremos alguns companheiros de leitura que deixarão de visitar-nos em função da minha repetição.

Eu só queria entender o que faz com que as Emissoras de TV explorem tanto a notícia da menina Isabela, como meu amigo Rogério de Moraes, do blog Obscenum, discordo da exploração da notícia, discordo da falta de ética do jornalismo atual, discordo que jornalistas conceituados se submetam ao editorial ditatorial que determina que seus funcionários exponham dessa maneira um crime.

Que a justiça deve ser feita, é mais que a obrigação de qualquer sociedade que se preze, mas não é possível que ninguém se dá conta de quanto isso é nocivo para um povo.

Algo que é dotado como o 4º poder dentro de uma estado democrático de direito deveria usar esse poder para algo construtivo, algo realmente importante que nada mais é que dar a notícia, ou seja, apenas e tão somente sua obrigação e basta. Digo isso porque não é o que tem acontecido. É cada vez pior a qualidade do jornalismo nacional e cada vez melhor a qualidade das notícias publicadas em blogs, por quê será?

Será que seria pelo fato de não existir rabo preso com nenhum patrocinador, que exige que o jornal tenha tantos pontos de audiência para que sua propaganda seja veículada naquele horário, ou porque a rede de TV tem a necessidade de usar sua capacidade de formar opinião a seu favor, levando até as últimas consequências.

A ética virou utopia e para Sibele Martins (Observatório da Imprensa, 10/07/2007 - A ética no Jornalismo "Denuncismo" e "Achismo"), isso é evidenciado quando ela escreve: "A verdade é que vivemos numa época em que o importante não é trazer informações relevantes desprovidas de preconceitos e pré-julgamentos para que o público possa avaliar de acordo com suas convicções. As palavras leitor, ouvinte, telespectador etc. foram substituídas pela palavra "consumidor" e o que importa é produzir, independentemente da relevância, da qualidade ou da confiabilidade da fonte. O importante é competir, é vender, é ter ibope, é atender e superar as demandas."

Concordo inteiramente com ela e antes de terminar esse post gostaria de pedir que deixem a Isabela em paz! Fora de Cena!

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A trilha sonora de nossas vidas


Hoje reencontrei uma colega que não via há anos. Após cumprimentos e abraços a primeira coisa que me falou foi: - Sempre me lembro de você quando escuto aquela música do Chico Buarque.

Tenho amigos que consigo imaginar de olhos fechados através da música. Dos sambistas “Portela já disseram que teu manto....” aos que ainda sobrevivem aos anos 70, “I say a little prayer for you....” e até aqueles que insistem em dizer: Toca Raul!

Isso sem contar os momentos. Quem é que naqueles bailinhos tão esperados do colégio não dançou ao som de Johnnie Rivers, “Do You Wanna Dance...”, a música é de 68, mas até hoje é executada. Nos deliciosos bailes de formatura, nunca vi nenhum homem ficar parado quando toca Y.M.C.A. E o coro dos formandos quando toca "We are the champions".

Ficaria aqui por horas contando a trilha da minha vida. Ela começa lá atrás com Noel Rosa, passa bela bossa nova de Nara, Chico, Jobim, passa pela Tropicália, as latinas, as infantis, americanas. Enfim, são apenas trilhas que acompanham nossas vidas, que nos fazem lembrar otrora sermos lembrados.


Time is money

Responda rápido:

Quantos segundos tem um minuto?
Quantos minutos tem em uma hora?
Quantas horas tem em um dia?

Agora pense um pouco e reflita: Quantos segundos tem em um dia?

Bom, são 86.400 segundos, bastante né?

Já ficou parado(a) olhando o ponteiro andar cada espacinho de segundo lentamente e o barulhinho que ele faz quando completa esse movimento. Confesso, dá um pouco de agonia ouvir esse barulho, e parece que o mundo todo fica mais lento também, como se estivéssemos estáticos.


Mas por que nos queixamos tanto da falta de tempo? Por que temos que comer um Big Mac com Coca-Cola no Mc Donald´s com tanta pressa no almoço se temos tanto tempo para almoçar?

Ou por que dormimos tão pouco e trabalhamos tanto?

É simples, não conseguimos administrar nosso tempo e isso acontece porque cada vez mais acumulamos tarefas e vivemos em cidades grandes. Nos cada vez trabalhamos mais e com menos eficiência. Quer um exemplo? Quantas reuniões você participa por dia? Quantas delas são realmente necessárias? Em qual parte delas falamos sobre trabalho e não sobre besteiras do dia-a-dia?. Esse é um exemplo de que como nos perdemos em pequenas coisas do nosso dia, mas que no final nos tirará preciosas horas de sono ou de estar com a família.

O fato é, desaprendemos a contar os segundos e viver cada segundo como se fosse uma vida. Vivemos a semana inteira esperando o fim de semana e quando chega a segunda já contamos os dias(?) para que chegue a sexta de novo. Mas, até lá, teremos 432.000 segundos para viver.

Façamos um exercício. Vamos parar por um minutos e olhar o relógio dar uma volta completa. Verá você que 60 segundos podem significar uma vida.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Isso é ComTato!

Meus amigos, que a Folha de S. Paulo me perdoe, mas irei replicar coluna de Gilberto Dimenstein publicada hoje.

Vocês irão perguntar(ou não) porque eu colocaria uma coluna de um jornal por aqui? Eu te digo dois motivos:

1- Porque é uma iniciativa de um cidadão comum em mostrar um lado diferente e degradado de nossa cidade de maneira artística

2- Porque ele é meu amigo, e de todos do blog. E ainda por cima é um dos criadores deste pequeno grande espaço que, em breve, será maior ainda.

Leiam e comprovem. É de pessoas assim que a sociedade precisa.

Segue o link da matéria(para assinantes):

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1604200810.htm


Caso esteja com preguiça, você pode ler abaixo.


GILBERTO DIMENSTEIN

Calçadas do anonimato
Ele se viu seduzido a descobrir fotograficamente o seu entorno, atraído pelos prédios do "centro velho"

RONALDO PEREIRA da Silva Júnior cultiva um inusitado hobby: fotografar calçadas de diferentes bairros de São Paulo. "Descobri que é possível revelar a alma de uma cidade através das suas calçadas."
A fotografia foi o que restou dos sonhos de comunicação de Ronaldo, que, na adolescência, pensou em ser ator e, depois, em seguir a carreira de publicitário. Preferiu trabalhar em banco e, atualmente, estuda gestão financeira. "Mas sempre mantive aquela vontade de me expressar artisticamente."
Em meio a planilhas repletas de números, ele se viu seduzido a descobrir fotograficamente o seu entorno, atraído pelos prédios do chamado "centro velho" -era a sua deixa para sair do anonimato artístico.




Nas conversas de corredor, descobriu um funcionário do banco -Anderson Patric Joaquim- que, como ele, gosta de fotografar e estava interessado em descobrir os segredos do centro. Nas horas vagas, os dois saíam para tirar fotos. "Decidimos, então, focar melhor nosso olhar."
Desconfiaram que as calçadas talvez contassem as diversidades e as desigualdades da cidade. "A calçada é algo tão corriqueiro, passando por nossos olhos todos os dias, que nem vemos como elas são o retrato de uma comunidade." A dupla sentiu isso literalmente na pele -um deles tropeçou no buraco de uma calçada e se estatelou no chão.



A dupla buscava os contrastes documentando as calçadas da periferia -onde um deles tomou o tombo- e a de ruas como a Oscar Freire. "Lá, elas são todas niveladas, bem cuidadas, limpas, há lugar para sentar e conversar, respeito aos portadores de deficiência." Em outros lugares, simplesmente não há calçadas, o que os obrigava a caminhar pela rua, em meio aos automóveis.
As diferenças também se registraram pelos personagens. Em alguns lugares, o que sobressai é uma árvore, jardim ou até um elegante sapato de salto alto ou, quem sabe, um cachorrinho todo vestido -em outros, além dos buracos, crianças ou homens dormindo.



O projeto entra agora numa fase mais ambiciosa. A dupla quer percorrer linhas de ônibus, saindo dos extremos das zonas oeste, sul, leste e norte. Vão fotografar as calçadas nos pontos iniciais e, de novo, na parada final, para comparar as imagens.
No meio do caminho dessa experiência, a dupla percebeu que tinha em mãos mais do que um projeto artístico: imaginaram-se com um material para denunciar a desigualdade de uma cidade por meio da dificuldade de circulação de seus pedestres.
E, neste momento, Ronaldo e Anderson estão preparando um jeito de sair do anonimato. Não sabem como nem quando, mas colocaram na cabeça que todo esse material vai virar uma exposição.



PS - Enquanto a exposição não vem, coloquei em meu site (www.dimenstein.com.br) algumas das fotos das calçadas que foram tiradas por eles.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Falha de comunicação

Não pude resistir a seu choro. Ofereci-lhe um lenço. Era uma moça magra, de cabelos curtos e olhar grave. Bonita, mas com ar sombrio, trajava regata branca, uma calça jeans e – não vi, mas minha imaginação me permite supor – all star. Uma corrente pratreada no pescoço, formada por elos entrelaçados. Muito séria, parecia distante enquanto eu, mesclando momentos de contemplação e desinteresse, buscava despertar-lhe a atenção.

Enfim o carro do metrô chega à nossa plataforma. Abrem-se as portas e penetramos como bois que atendem mecanicamente ao sinal de um berrante. Ela vai na frente, não a ponto de me permitir uma exame mais clínico de suas formas. Sento-me ao seu lado e começo minha viagem interior. Cabeça vazia é oficina do diabo, mas como o diabo é o pai do rock, minha mente viaja entre sistemas solares e discos de vinil. De repente, lembro-me do pôr do sol no Rio de Janeiro e de minha família. Duas coisas que adoro, mesmo tendo-as tão longe. Universos paralelos, futuros imprevisíveis, paixões solitárias, ouço o som do vento que grita de tarde as notas da monotonia interiorana. Um desafio pela frente: a conquista da pessoa amada.

Saio desses devaneios por causa de um choro mal contido que ouço ao meu lado. “Não, ela deve estar resfriada”. Quem carrega consigo o fardo das lágrimas sabe distinguir um choro de uma gripe. Chorava a pobre moça ao meu lado. De início, tomado por meu recato, pelo medo de oferecer ajuda e parecer indiscreto, silencio. Ao mesmo tempo, sinto-me obrigado a ajudá-la de alguma forma. Pensava que o mundo seria melhor se o fato de duas pessoas não se conhecerem não fosse impedimento para que uma ajudasse a outra. Queria acalentá-la, contar uma piada. Queria ver seus dentes se abrirem num sorriso. Sentia que ela queria ajuda. Mesmo que não admitisse, mesmo que a falta de confiança do ser humano no próprio ser humano não permitisse que ela se abrisse para um desconhecido como eu, ela queria um ombro para chorar. Ou melhor, queria não chorar.

Procuro em meu bolso roto da viagem um lenço que pensei ter esquecido dias atrás. Encontro-o amarrotado. Limpo, mas amarrotado. Delicado e indeciso, ofereço o lenço para a moça. Óbvio que ela não aceita. Sabe-se lá aonde eu teria colocado o lenço ou a mão. Recusa minha ajuda como quem recusa carona no meio da noite. Por medo, por nojo, ou simplesmente por educação. Pensei comigo: o que mais falta à chorona do meu lado é a única coisa que queria dar-lhe, bem como a proposta de nosso blogue. Comtato.